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Exposição
Tempestade de Flores - Rosa Oliveira



Algo irrompe intempestivamente.  Relâmpago e fúria, delicadeza e dom, terror e êxtase. Um descomedimento que se trama em ambigüidades: uma “tempestade de flores”. Como pensá-la?

Signo de uma demonstração - os deuses não cessariam de exibir sua irritação e poder intervindo na cólera dos elementos - a tempestade, “meteoro tanto medusante quanto ostentatório, estupefaciante quanto monstruoso”, como disse Louis Marin, é uma das figuras propedêuticas do sublime: esse “quase demasiado” kantiano de um irrepresentável que apenas pode ser “consignado”, isto é, “convocado por signos”, como a violência e a morte. Um aniquilamento súbito e uma demonstração (monstration) exemplarmente evocados, segundo Marin, por dois personagens: a Medusa e o Monstro.

Mas entre a Medusa e o Monstro, entre a morte (que a cabeça mascarada de Gorgó provoca aos que cruzam seu olhar transformando-os em pedra glacial e cega) e a monstration (o prodígio de um anúncio), entre a visão impossível e o excesso que se exibe, precipitam-se flores. Nas tempestades de Rosa Oliveira, caem flores em meio aos raios e trovões que cegam e ensurdecem A artista sabe, como o poeta romântico, que flores também são colhidas do mal, cultivadas no crepúsculo das horas. São flores negras, decerto. Opacas e silenciosas, ignorantes de sua condição de flor, como no poema de outra poeta citada por Rosa, Orides Fontela. Mas ainda flores. Flores intempestivas em inesperadas tempestades: “mescla insensata pela exasperação de sua diferença”.

“Tempestades de flores” - assim Rosa Oliveira intitula esta exposição. A artista traz um recorte de sua produção artística ao longo de dez anos, pinturas exibidas em três mostras individuais realizadas nesse período: Jardim Negro (1999); Brise-soleil (2003); Prata (2007).  Uma década de rigor construtivo e precisão geométrica, alheios às loquacidades vãs e aos frêmitos fugazes dos espetáculos contemporâneos. As telas de Rosa Oliveira exalam a gravidade de quem enfrenta tempestades sem temer dilaceramentos. Repousam flores (invisíveis e abstratas) entre a visão impossível e o excesso que se exibe. A artista rejeita, do sublime, o estremecimento fácil. Um quase (demasiado) e um entre (infinito) confidenciam sua poética. Uma circunspecção, um quase silêncio, um quase murmúrio, uma quase tom. Em sua pintura, não são as linhas ou as cores que são exaltadas, mas as sensações coloridas perseguidas por Cézanne. São os timbres, os matizes que povoam o entre, que demandam ao olhar reter-se sobre a superfície do quadro. O infinito da ínfima diferença, das sutis incitações: são incontáveis pretos, rosas, pratas, azuis.

A artista desde logo recusou a ver, no preto, ausência e luto, o extremo da gama cromática, o avesso da plenitude de luz e cor. Recusou a ver no negro, como Ad Reinhardt, “o último quadro que se pode pintar”. Colocou-se uma tarefa: redimir o preto das dores ancestrais, das submissões das sombras. O negro não desfere sobre a luz seu espectro, mas quebra a cegueira dos sóis, revela as possibilidades dos crepúsculos.

Ao longo dos anos, nas telas negras foram se insinuando rosas, pratas, cinzas, azuis.  Abrindo-se a outras cintilações (alguma estrela), mesclam-se entretons: aquecem-nos os entre-pratas e lilases, entre-rosas e oliveiras, entre-azuis e kleins... Não são os deuses que exibem sua cólera ou recusam sua face. Na abertura ilimitada desse entre, na demasia dúbia desse quase, não se aloja o absoluto irrepresentável, mas a pluralidade dos acontecimentos pictóricos, o infinito de seus ensaios. Medusas e Monstros aprendendo a conviver com as flores.

Marisa Flórido Cesar


TEMPESTADE DE FLORES
Exposição: 9 de abril a 10 de maio de 2009, de terça a domingo, 12h às 19h
Local: Centro Cultural Correios
Endereço: Rua Visconde de Itaboraí, 20 - Centro - RJ
Telefone: (21) 2253-1580