Quirino e Hilda em Paris, anos 30
O que os dois pintores recém casados buscavam na Europa em, 1930, mas ainda do que a arte do passado, mal conhecida no Rio, e apresentada em raras tricomias de luxo - os que buscavam mais, era a arte moderna, esta praticamente quase nunca publicada e jamais em cores. Havia precedentes modernos no Brasil, jovens de mais recursos familiares que tinham ido à Paris, talvez à Roma, às vezes até a Alemanha.
Antes de 1920, Anita Malfatti estudara por lá e pelos EUA, trazendo obras de forte expressão renovadora, que ela jamais repetiu com a mesma força; As viagens de Tarsila do Amaral são arqui-conhecidas e a influência definitiva de Léger Gleizes e Lhote; Hugo Adami visitara Carena e Sironi em Florença, no final dos anos 20; do Recife, Lula Cardoso Ayres freqüentara em Paris o art-déco e do Rio, Ismael Ney, também em Paris, conhecera Chagall em 1927 e o trouxera a Cícero Dias, que ambos rabiscavam pelos cafés do Rio e faziam dadá sem saber, faltando sistematicamente às aulas da Escola de Belas Artes.
Henrique Cavalleiro, que for genro de Visconti, volta ao Brasil em 1925 com sólidos sinais pictóricos da dupla, e nem sempre bem casada, influência de Cézanne e do art-déco. Mas os demais estudantes e jovens pintores em formação, mais modestos, o mais provável é que jamais tenham visto um Cézanne e, em hipótese nenhuma, em reprodução colorida.
Em 1929, quando Quirino Campofiorito ganha o cobiçado Prêmio de Viagem (de 5 anos...) da ENBA, a seguir de carias medalhas, e às custas de prolongadíssima pintura de um modelo nu que seu professor, o típico acadêmico Augusto Bracet insistia em que fosse amarelado , como tinham sido os de sua aula. Naquela época havia melhor na velha Escola, havia Lucílio de Albuquerque, depois compadre de Quirino, mas que parecera suave e liberal demais para que o severo Pedro Campofiorito o aceitasse como professor do filho. E havia Rodolfo Chambelland, “o melhor da época”*, mas que (ou terá sido o irmão Carlos Chambelland, no atelier-escola que mantinham?) quase corta a carreira de Hilda Eisenlohr, então noiva de Quirino, ao dizer-lhe bondosamente: “Moça tão bonita, porque não aprende a pintar almofadas?”.
Mas Hilda conseguiu aulas com Georgina de Albuquerque que, casada com Lucílio, morava em Niterói e prosseguiu na velha Escola o seu curso de aluna livre. E, enfim, o generoso Prêmio veio permitir aos nossos personagens, o casamento e a viagem de alforria.
Na França, depois em Roma e finalmente em Paris, desfez-se o acanhamento acadêmico - o que deve ter lhes parecido muito mais natural do que revolucionário. Porque não se tratava de serem modernistas, a arte moderna não era um estilo, era justamente livrar-se de todos os “estilos”, inventados pelo ecletismo do sistema Beaux-Arts (“a escola dos Bôsards, de Bougereau e do seu Salão”, praguejava Cézanne). A modernidade, ou “a condenação a ser moderno”, nas palavras de Mario Pedrosa, aceitou-se sempre com condição natural de vida. E, naquela época, Paris era o indiscutível epicentro, o manancial do modernismo, inventado ou exercido por artistas de toda a parte. Quem pensaria que Picasso, Chagall e Klee, ou Matisse, Marcel Duchamp e Brancusi praticassem um mesmo estilo modernista?
É evidente que a redução da palavra moderno a modernista (transitório, sujeito a superação...) não passa de estratégia perversa da crítica pós-moderna.
Mas, aproximava-se o meio da década e nosso jovem casal já compreendera a construção pictórica de Cézanne, a energia colorida do expressionismo alemão, a revisão cubista do espaço, a tranqüila poesia de Puvis de Chavannes e a suspensão do tempo pela metafísica de De Chirico, tudo isso a beira de um certo endurecimento ou cristalização das formas, a que Cocteau ironicamente teria chamado de rappel à l’ordre. No próprio mundo que percorriam havia sinais próximos de mal-estar cultural. Nas duas famílias que visitaram, na Itália e na Alemanha o nazi-facismo dividia as gerações. Em Roma, onde de repente de anunciara um filho, aumento a pressão para que Quirino voltasse à nação de seu sangue, multiplicaram-se as buscas de explosivos nos tubos de tinta e as interrupções policiais noturnas. O delegado local, com cumplicidade fugidia do Consulado brasileiro já exigia o registrado italiano do próximo nascimento. A ponto de perder o passaporte, Quirino e Hilda pretextaram estudo em exposição internacional, apertaram suas coisas em poucos caixotes e, praticamente, fugiram para Paris, onde o abaixo assinado nasceu na Av. du Maine, bem junto do atelier do Impasse du Rouet, ao pé de Denfert-Rochereau, com Coupole, o Dome e, principalmente a Rotonde, tudo ao alcance de um carrinho de bebê. O Montparnasse de Modigliani e Brancusi substituíra o Montmartre do Bateau Lavoir e das Demoiselles d’Avignon.
Portinaria já estava lá, e outros brasileiros eram os pintores Alfredo Galvão e Cadmo Fausto, além dos arquitetos Meyerhoffer e Atílio Correa Lima, com vários destinos que lhes conhecemos.
É preciso ver nos quadros à mostra no Solar do Jambeiro, os mais duradouros sinais de viagem que buscavam Hilda e Quirino: a felicidade que já levavam consigo, o direito de ter um filho brasileiro e a liberdade de fazer a arte do sei tempo, livre e moderna.
Ítalo Compofiorito
* Esta e outras informações extremamente pessoais foram geradas ou revistas na “Entrevista com Quirino Compofiorito” realizada pelo Projeto Portinari, em 1982.
NA FRANÇA A LIBERDADE - HILDA & QUIRINO CAMPOFIORITO
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