A pop art é um produto direto da sociedade de produção e consumo em massa. É a maneira de a arte ver o universo dos objetos, o mundo das coisas. A nossa é muito diferente da americana, pois tem um caráter crítico, irônico, político e, às vezes, carnavalesco. Marcello Nitsche e Claudio Tozzi estão entre os melhores. Eles são profundamente originais e conseqüentes e criaram uma extensa iconografia. Com a atual exposição de Andy Warhol na Pinacoteca de São Paulo - patrocínio e presente à cidade de São Paulo do Citi em comemoração aos seus 95 anos - e o brilho, eficiência e objetividade de seus trabalhos, é uma boa hora para observar estas diferenças.
Marcello Nitsche é o lúdico criador de universos que reinventam o puer eternus, a eterna criança. É o que faz emergir em nós. É raro um artista com tanta espontaneidade no gesto e na invenção estética. Ele pertence à categoria dos que sabem sem percorrer o caminho do raciocínio dedutivo. Ele, de repente, sabe. O artista Marcello Nitsche gosta de andar no limite, entre fronteiras, na terra de ninguém. É utópico. Ele criou as “pinceladas” em material rígido, como se fosse uma placa, com os respingos e as falhas das cerdas do pincel. Não é pintura, escultura ou um objeto tradicional, já que nem corpo tem, é uma espécie de alma da pincelada. É assim que ele se move, por estes caminhos incógnitos, desfiladeiros fora do mapa, mexendo na estrutura das coisas, como uma criança que desmonta o brinquedo e – surpresa! – quando remonta, o que era um rádio transforma-se em bicicleta. Isto é impossível. Agora, como explicar isto para o Nitsche? Ou, melhor, como contar para a bicicleta que ela não é bicicleta, mas um rádio?
O artista Claudio Tozzi sempre criou imagens a partir dos objetos e dos acontecimentos do cotidiano. Os seus modelos foram os personagens e as cenas que fazem parte da vida de cada um: a notícia do jornal, a embalagem na gôndola, o destaque do telejornal. Tozzi tornou temas o "Bandido da Luz Vermelha", os "Astronautas", "Veneza", o "Parafuso", as "Escadas" e transformou o banal em paradigma, pois os elevou à condição de imagens do século vinte através das quais é possível entender o contingente. O artista mostrou o universo de objetos que impregna a vida atual e tornou equivalentes os vários elementos da nossa realidade. A história de crime do jornal, a notícia do astronauta na lua, o parafuso, visões dos canais venezianos, tem para nós o mesmo impacto e recebem a mesma atenção. São partes integrantes de um universo de comunicação e de extraordinárias transformações.