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Exposição - "A letra é a traça da letra" Helena Trindade



Foto: Beto Felício




No dia 21 de março, quarta-feira, às 18h30, a artista Helena Trindade vai abrir a exposição “A letra é a traça da letra”, no Paço Imperial. Com curadoria de Glória Ferreira, a mostra apresenta cerca de 45 obras, entre objetos, instalações, fotos, esculturas, vídeos e performance (no dia da abertura) que ocupam as quatro salas do segundo pavimento da instituição. Os trabalhos, a maior parte em grandes dimensões, são inéditos e muitos deste ano.

As obras dialogam com a forte tradição brasileira em Poesia Visual, campo no qual a artista trabalha desde a década de 90. Na produção de Helena, signos visuais e linguísticos se concentram na materialidade da letra, na tensão entre o enunciável e o visível.

“A letra é a traça da letra”, a exposição, também dá nome a uma das instalações, composta pelo trabalho Alfabeto traça – invenção de um alfabeto autorreferente (não corresponde a nenhum outro conhecido) com teclas apagadas de máquinas de escrever –, e por um dicionário etimológico perfurado pela artista, ao modo das traças, com pequenos tipos de máquinas de escrever. “Existe no movimento que gera a linguagem um trabalho perpétuo de rearticulação que problematiza a questão da origem, uma vez que nesse processo nada se produz que não seja pela transformação”, esclarece Helena.

São muitas as letras e os abecedários presentes nas diversas instalações da exposição “Alfabetos latinos sem serem segmentais, mas em processo de constante construção, destruição e reconstrução. Os trabalhos remetem-se uns aos outros e estabelecem um amplo campo de Poesia Visual”, explica Glória Ferreira.

Nas paredes o Alfabeto traça é disposto como em um caderno de caligrafia. “Sem código, dialoga com a destruição do muro da linguagem pelo Vírus na primeira instalação e com a apresentação das coisas do amor e do desejo nas outras salas. Arremata o encadeamento dinâmico de todos os trabalhos, ainda que de forma provisória, posto que o processo da artista avança, retroage e se transforma, com a invenção de um novo alfabeto”, resume a curadora.

Quatro grandes instalações, concebidas como poesias visuais, abordam diferentes aspectos do funcionamento da linguagem, por meio de imagens, letras e sons. Cada uma delas possui elementos que remetem às instalações seguintes. E o público interage com algumas das obras. A instalação (a)MURO – onde está um grande muro construído com estênceis de letras –, por exemplo, trata de engajar sensorialmente o corpo das pessoas na Floresta de casulos, que deve ser atravessada para se ter acesso à sala seguinte. Nesta instalação, as pessoas se encostam nos elementos de papel e linha de encadernação, de formas orgânicas, movimentando-os e, ocasionalmente, alterando essas formas.

A questão do tempo e do corpo também está presente no vídeo D’Écrit x Des Cris (Escritos & gritos), parceria com Ana Kfouri, onde o corpo aparece sempre aos pedaços ou por meio de sombras e de gritos. E também o corpo da artista se presentifica na ação ‘Nada terá tido lugar senão o lugar’, no dia da abertura.

“A instalação (a)MURO se dá como num campo de forças em ‘inter-ação’. Um polo impuro do tempo: o vídeo D’écrits & Des cris (Escritos & gritos), a ação Nada terá tido lugar senão o lugar e a instalação Floresta de casulos; e um outro polo impuro, do espaço: o (a)MURO, as fotografias Alfabeto traço e os Vírus. Entre os dois polos estaria o Tempo para compreender, objeto que consiste em dois relógios com mostradores de letras, sendo que um deles funciona no sentido anti-horário”, pontua a artista.

Na instalação seguinte, (A)MOR, há um vídeo-díptico, que consiste em dois vídeos projetados no chão da sala, que colocam em questão momentos diversos do afeto amoroso. Um vídeo é dinâmico e vertiginoso, com música eletrônica. O outro é plácido e suave, com música da Grécia Antiga. Espera-se que as pessoas atravessem o espaço desses vídeos, projetando suas sombras e deixando-se “banhar” pelas imagens.

A instalação Medida de todas as coisas é composta por 20 objetos que remetem também ao corpo e à letra, na forma de utensílios, livros, brinquedos e outras coisas que se transmutam em obras de arte a depender da visada e o desejo do espectador; trabalhos intensos e instigantes que se relacionam entre si pela letra, pela presença e pelo lugar de onde falam ao outro...

Muitos autores têm se referido à letra: para Lacan, “o exemplo mais puro do significante é a letra, uma letra tipográfica”; para Barthes, “Toda a poesia, todo o inconsciente são uma volta à letra”; já para o poeta dadaísta Kurt Schwitters, “A base material da poesia não é a palavra e sim a letra”. “A letra não permite diretamente a leitura, mas problematiza o sentido e a visualidade”, diz Tania Rivera em seu livro O avesso do imaginário.

Para Helena Trindade, “a letra é um ‘pré-texto’ para um jogo poético”.

“A poeticidade da letra acontece num intervalo de indeterminação, na lacuna mesmo, entre o dizível e o visível. É o trabalho da plasticidade da letra com a imagem que abre um texto para legibilidades ilimitadas. Na unidade formal mínima da letra, as palavras são flagradas antes de significarem”, finaliza Helena.



"A letra é a traça da letra" Helena Trindade
Abertura: 21 de março de 2018, das 18h30 às 22h
Período: 21 de março a 27 de maio de 2018
Local: Paço Imperial - Praça XV de Novembro, 48 - Centro - Rio de Janeiro - RJ
Horários: terça a sexta - 12h às 19h | sábados e domingos - 12h às 18h
Informações: (21) 2215 2093
Entrada gratuita
www.amigosdopacoimperial.org.br





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